Três mulheres e o medo de amar.
Clarice entra no bar vestindo uma jaqueta vermelha mas não sabe se é a cor da jaqueta ou do seu rosto, ha poucos minutos esfregado numa barba mal feita, o que chama mais a atenção.
Avista seu namoradinho, o qual ela fazia questão de apresentar no diminutivo, mas corre para o banheiro antes que ele a cumprimente.
"Um mínimo de decência", ela pensa, enquanto lava o rosto.
Admirando as maçãs vivas do seu rosto, pensa com um sorriso que de tão malígno esfria sua própria espinha: "se o coitado soubesse o que eu tinha na boca há dez minutos, em vez de me beijar daria era um bom soco nessa minha cara de pau".
Antes de dormir, Ane procura um aconchego qualquer para a alma e resolve contabilizar, embaixo das cobertas quentes, todos os homens que estão na sua vida. Tem o ex namorado requentado, que depois de ter judiado muito dela agora merecia as intercaladas declarações apaixonadas em meio a sumiços obscuros. Sua meta era enlouquecê-lo se fazendo de louca.
Tem o coroa charmoso, que todo final de tarde a agarrava no estacionamento da empresa e depois se limpava com o jornal do dia para que a sua mulher não desconfiasse de nada. Tinha o amigo muleta para todas as horas, aquele que sabia de todos os podres mas por alguma deficiência muito parecida com a de Ane, se excitava ainda mais com eles.
E tinha mais um, qual era mesmo? Ah, o que ela havia saído hoje, mas este estava apaixonado demais e não merecia ser contado.
Fernanda ganha flores com poesia do Pablo Neruda e pensa: "se ele fosse o homem da minha vida, teria escrito sua própria poesia". Fernanda recebe um email dizendo te amo em mais de quarenta linhas e pensa "se ele fosse o homem da minha vida, teria escrito eu te amo no céu. Fernanda dorme abraçada com um homem que a proteje de verdade e pensa: se ele fosse o homem da minha vida, não estaria dormindo. Fernanda acha ele bonito mas pensa: se ele fosse o homem da minha vida, seria o mais bonito do mundo.
Antes de sair do banheiro Clarice ajeita o peito no sutiã com enchimento, checa se realmente sua bunda melhorou com o boxe, coloca os cabelos loucos para trás e sente uma coisa gosmenta entre eles. Neste momento o lado "família Doriana" de Clarice aflora e ela se sente vazia e suja. Pensa em vomitar ou morrer mas apenas abre a porta e se joga nos braços do seu namoradinho, aquele que, como todos os outros, estava longe de fazê-la sentir o amor que ela queria sentir tanto quanto tinha medo.
Pede uma água bem gelada para purificar o seu gosto e sente o cansaço chegar. Ela precisa sentar, ela precisa voltar pra casa, ela precisa dormir, ela precisa conhecer alguém, casar e ser mãe. Ela precisa da porra da casa com cerquinha branca, música de Chet Baker e bolinhos de chuva. Ela pára um segundo para admirar o novo amigo do namoradinho e pensa, com o que restou das suas forças, que ele daria um bom caldo.
Clarice está cansada de ser moderninha mas morre de medo de ser mulherzinha.
Morre de medo de virar uma daquelas moçoilas de voz doce e tons cor-de-rosa que se surpreendem com a mão no peito e piscam trës vezes consecutivas para consentirem a vida e parecerem uma borboletinha.
Clarice esquece o tempo todo que pode ser uma mulher apenas, uma mulher que vai pra casa descansar porque está com sono, uma mulher que abre mão de estar com qualquer um só para não estar sozinha. Uma mulher fina e meiga que usa tons rosa e, ainda sim, pode mandar com inteligência aquele namoradinho meia boca para a puta que o pariu.
Ane pega no sono finalmente, sonha com uma estrada vazia, com flores que em vez de alegrá-la apenas lembram um cemitério. No sonho a sua sensação de solidão é tão forte que a faz acordar e rezar.
Fernanda aguarda pacientemente pelo seu príncipe encantado, enquanto plebeus passam pela sua vida mas ela, com medo da realidade, continua os expulsando da história.

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