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  O pó da santa

Eu era uma santa de uma capela modesta, humilde e pobre. O acesso a mim era difícil e as pessoas, por preguiça, esquecimento ou medo, já não pediam mais minhas bençãos.
Nada de joelhos para a minha presença engessada, nada de lágrimas emocionadas para o meu olhar de profunda maquiagem e nada de panos molhados para meu cansaço desumano.
Pouco freqüentada e morta de fiéis, minha capela já não era mais limpa e toda a sujeira do mundo caía sobre a minha cabeça acolhedora, se estendendo ao longo do meu corpo devoto.
Meu manto azul ficou preto de imundícies e minha pele alva começou a carregar o sebo do mundo que deseja e expele.
Olhando o dia todo para o nada, eu via com uma passividade inerte todos os erros do mundo.
O mundo estava cansado de buscar respostas e acalantos no semblante de uma estátua e eu comecei a me autodeteriorar.
Meus dedos caíram, a ponta do meu nariz caiu e a palma da minha mão furou. Eu perdi cor, brilho e alma.
Sim, eu tinha uma alma. A alma de tantas purezas que me esperavam. De tantos corações despedaçados que me viam como uma cola sagrada. Eu vivia de vidas e pensamentos maiores voltados ao meu teto.
Eu estava morta, pequena e o teto me servia de final, quebrando-se em pedaços nos meus.
Me enchi de pó, era tanto pó que turvou minha visão. Não enxergava mais nada mas ainda ouvia. O barulho da destruição. A casa que um dia havia abrigado
desejos caía em tentação. Pra baixo do chão. Eu não pensei em Deus porque até ele havia se esquecido daquela capela tão esquecida. O céu eram os outros mas já não havia mais ninguém.
No lugar da cruz colocaram um neon escrito "shadow". Ele piscava como uma paquera gaga, mas esquentou meu rosto duro e ritmou meu peito antes desfacelado.
Ganhei olhos pretos, e como o mundo ficava bonito neles.
Ganhei roupas vermelhas, ganhei botas de cano alto. Ganhei um decote e brincos de pérola. Ganhei batom vermelho e uma cinta que ligava minhas meias-calças à minha roupa de baixo.
Eu antes acostumada a dar, nunca tinha recebido tanto.
Senti o ar entrar por debaixo da minha saia rodada. Senti borboletas movimentarem meus ventres mofados. Ganhei um sorriso maligno em um desenho boquiaberto. Ganhei algemas, mas nunca havia me sentido tão livre.
A velha capela havia se transformado numa casa bonita, com almofadas de cetim que combinavam com os sofás de veludo. Tudo em tons quentes.
Minha alma se aqueceu como uma golfada que vem de baixo pra cima e da minha boca saíram estrelas. Pude perceber que as estrelas eram de todas as cores, bem acima da minha cabeça. A mais bonita era de uma luz negra, que parecia
acompanhar as novas canções.
Não sei bem que música era aquela, mas os novos devotos a escutavam com tanta fé que recebiam espíritos intensos, se chacoalhavam, desciam até o chão, voltavam. Pulavam balançando a cabeça. Uns se atracavam com outros e
pareciam virar um só.
Era um espetáculo lindo.
Eu voltei a acreditar em Deus porque as pessoas voltaram a acreditar em mim.
Passavam por mim e me olhavam fixamente, eram olhos cheios de fé, estimulantes e com rímel borrado.
A fumaça e o líqüido quente que as vezes alguém derramava em mim não tinham mais nada a ver com velas, mas cheiravam a fogo.
Às vezes alguém de brincadeira colocava um cigarro na minha mão estendida, e aquilo era muito melhor do que fotos de doentes aos meus pés.
Ali ninguém queria ser salvo, e aos poucos fui sendo resgatada.
Um dia escutei a conversa de um senhor de camisa florida com uma garota linda, que me olhava encantada. O senhor disse:
- Era umas das santas da antiga capela, antes de jogar tudo fora, eu olhei para ela e juro que vi uma lágrima cair, tenho certeza de que era uma súplica por sacanagem.
Eles riram e saíram. Eu fiquei, e a partir daquele instante comecei a acreditar em milagres.