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O encontro

Duas e cinco da manhã. Sem sono e com uma angústia que parecia fome, parecia tédio, parecia uma coceira de angústia bem no centro da sua existência, ela espremia com as mãos o chumaço de pêlos bem no meio das pernas, querendo extrair dali o caldo da sua chateação.
Se espremia irracional e preguiçosa, como um bicho, e foi aí que teve a idéia. Simples, absurdamente simples, de chamá-lo. Por que não?
Ele não falhava nunca. Estava sempre pronto, disposto, duro e certo. E o melhor: ele nunca a julgava.
Ela sim se julgava, e como. Era neurótica sempre e com tudo, mas nem por isso deixava de ser instintiva. E aí morava a graça e o segredo de sua personalidade cheia de riquezas e
esquisitices.
Pensava tudo isso sem pensar. Eram flashes de pseudopensamentos misturados ao filminho pseudopornográfico que ela já começava a formar em sua cabeça.
Cabelos puxados por punhos másculos e uma nuca exposta numa nudez explicitamente desintencional; olhares animalescos que se estranhavam ao ponto de a conversa continuar pontuada por mordidas e roçadas, como numa competição de natação, cabeças lançadas para cima e para baixo, num fôlego confuso entre o prazer de afundar e o prazer de sair à tona.
Línguas de fora, gritos abafados, gritos intencionalmente escandalosos, pernas muito abertas, movimentos de entra-e-sai. Pias de cozinha, de banheiro, carro, chão. Dominação de sexualidade num corpo perfeito de mulher, dominação de poder num corpo imperfeito de homem. Cada personagem tinha uma história, e ela sabia todas como uma voyer que, indo mais longe, não apenas espia, mas sente.
Ele chegou rápido e, dada a intimidade de anos, foi se enfiando sem muita cerimônia. Mas dada também à intimidade rotineira de anos, ela continuou fazendo uso da sua imaginação, cheia de canais quentes que eram zapeados segundo o seus desejos.
Ela controlava tudo e, apesar das loucuras barulhentas das suas fantasias, ninguém ouvia um só pio sair daquele quarto.
Era incrível a afinidade de ritmos entre os dois. Mais lento, insistente num mesmo ponto, preenchedor, delicado e muito mais rápido. As mudanças ocorriam no segundo certo e nunca, nunca, o prazer dela se decepcionava.
Cada personagem de seus devaneios eróticos alertavam para o grande momento, os movimentos eram mais intensos, as cores mais gritantes, os sons mais desesperados, as horas mais rápidas e infinitas.
Tombavam, finalmente, mortos pela batalha que se lutava para morrer. O esboço de sorriso cansado e cheio até a boca, era comum a ela e às suas criações, que iam sumindo na fumaça confusa da vida que retorna melhor depois da reencarnação nada religiosa.
Molhado, frouxo e deitado de lado, era chegada a hora da despedida.
E foi o que ela fez, limpando-o num pedaço à mostra de lençol e o devolvendo à sua função primária e óbvia de pai de todos.