| |
Munida de coragem assumo: nunca fumei maconha e nem fiquei bêbada
Não é por ser certinha (se é que ainda existe algum sobrevivente do meu
convívio social que pense isso de mim), não é por respeito à minha criação,
religião ou qualquer valor e crenças paradigmais.
A resposta é simples, uma frase só: a vida já é demais para mim.
Já é o suficiente para eu pirar, ficar evitando quedas, ânsias e tonturas.
Mais do que o suficiente para eu rir à toa, dançar como uma retardada e
viver em crise de abstinência, querendo sempre mais de tudo.
Ser equilibrada é uma luta diária, que para a minha felicidade, e por uma
vida menos ordinária, na maioria das vezes é uma luta em vão.
É com muito esforço que eu não saio por aí dando atenção, e o que mais der
vontade de dar, a toda essa beleza que desfila na minha frente.
É com força sobrenatural que não me apaixono por todos os sorrisos,
inteligências, estranhezas, perfumes e ombros largos que existem. Eu juro
que queria ser mais séria.
Será que eu queria mesmo?
Não sei, não sei muito de mim, sei das sensações que tenho quando decido
experimentar o que tira o meu raciocínio, mesmo porque é só o que resta
fazer quando não se pensa, só se sente, às vezes muito.
E eu sinto muito, por tudo. Tudo sempre tão intenso que termina em
arrependimento.
Sensações de poder, de asas, de conquista do mundo. E se eu estivesse
quimicamente alterada numa hora dessas? Eu pularia da janela, eu
potencializaria minha insanidade.
Eu que como boa taurina já tenho tanta preguiça, eu que como boa ariana já
tenho tanta vontade de seduzir e confundir o mundo. E se eu fumasse
maconha, tomasse um ecstasy?
Eu acabaria dormindo o dia todo e só acordaria para arruinar a vida de
alguém, de muitos, de todos os homens que eu pudesse ter.
Nas primeiras oportunidades que tive, de experimentar essas coisas, eu era
uma adolescente.
Carnaval de rua, show do Timbalada, aquelas batidas eram demais, eu tinha a
impressão de que se eu não pulasse junto com a música o meu peito iria
estourar, eu estava alucinada, arrepiada inteira.
Todo mundo cheirando lança: "vai Tati, experimenta, essa é das leve, sua mãe
deve ter cheirado quando tinha a sua idade".
Perguntei que efeito tinha: por alguns segundos um barulho estranho no
ouvido, uma sensação enorme de bobeira boa e o coração disparado.
Pois muito bem, eu já estava me sentindo assim, não precisava daquele
paninho estupido, daquele olho virado estranho. Eu hem!
Eu lembro muito bem a emoção que eu sentia de frente para espelhos, de
danceterias ou barzinhos da moda: eu maquiada pela primeira vez, linda,
longe dos meus pais, longe da minha casa, longe do que eu achava que eu
era.
Eu tinha o mundo ali, me esperando numa pista de dança, eu quase desmaiava.
Quando uma música sensual começava a tocar, eu dançava como uma mulher, uma
putinha, uma louca, uma qualquer. Eu tinha uma vida pela frente e ninguém
sabia meu nome.
Aquilo me tomava de uma tal forma que eu pedia perdão a Deus, eu rezava
para o meu coração não parar ali, eu tinha enjôos, eu quase desmaiava.
Aquilo era demais e nada mais cabia em mim, nada e tampouco uma gota de álcool, um traguinho num cigarro.
Eu não queria estragar nada, não queria perder um minuto.
Eu tinha a coragem e a deliciosa cara-de-pau de chegar naqueles garotos, os
populares, os escolhidos por grupos de garotas de cabelos lisos, e falar,
fingindo de bêbada para não parecer louca: "Gostei de você, por que você não
vem aqui".
Enquanto minhas amigas vomitavam no banheiro, eu beijava todos eles.
Enquanto elas passavam o dia seguinte com dor de cabeça, eu passava
atendendo todos eles ao telefone.
Eu fui a primeira a namorar, eu fui a primeira a namorar com dois ao mesmo
tempo, eu fui a primeira a terminar namoros e tirar zero em provas de
matemática e geografia.
Eu nunca transei com ninguém fora do meu estado normal, e nem por isso
deixei de estar completamente enlouquecida com aquele momento.
Principalmente depois que eu descobri que dor era aquela da qual eu sentia
tanto medo: a dor de entregar a alma para alguém.
Hoje eu sei que a alma é minha e ninguém a tira de mim só por estar com o
pau duro, ninguém.
Eu me libertei e tenho me divertido, menos do que gostaria: a mão
adormece, torce para fora, a boca seca, os pés doem, lágrimas, uma besteira
vem a cabeça e não dá para não falar.
No dia seguinte nenhuma dor de cabeça, só o coração drogado, temendo uma
crise de abstinência.
Para que mais? O corpo e a vida nos dão sensações malucas, quase
insuportáveis de controlar, e absolutamente saudáveis e naturais.
Bad trip? Tive várias. Quem nunca se arrependeu de não ter ficado em casa?
Minhas pupilas já estão dilatadas, minha garganta já está seca, eu já tenho
um puta tesão de encostar nas pessoas.
Cansei de responder que não, não, eu não estou bêbada.
Eu tenho essa cara de bêbada, eu até caio em portas de bar de tanto rir e
me divertir, mas não, eu nunca estou bêbada nem drogada com qualquer outra
substância.
É tudo natural, eu sou assim, a vida é demais para mim, o que eu posso
fazer?
Para relaxar eu grito, choro, ouço música, converso.
E eu confesso que eu tenho medo também, muito medo.
Um puta medo de deixar de existir por alguns segundos, de curtir o mundo
sendo outra pessoa. Alguém me viu por aí? Porque eu não sei aonde estou.
Medo de me perder, de perder o controle, de perder a vergonha.
O pouco que resta perder de tudo isso.
Explicado? 
|