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Love Machine

Não sou puritana. Às vezes escorrego no machismo e no romantismo, mas puritanismo nunca, jamais. Até porque seria hipócrita de minha parte.
Mas a verdade é que após a primeira hora no Erotic Fair, uma feira de produtos eróticos que aconteceu em São Paulo , eu já estava enojada o suficiente e querendo ir embora. Fã incondicional do sugestivo, do indutivo e do implícito, tanta "escancaração" me incomodou.
Nem é uma crítica à feira, não, ela cumpriu bem o seu papel e as pessoas que trabalharam nela, idem. É apenas uma particularidade minha: o explícito não me causa fortes emoções. O explícito tá lá, exposto, fácil, pobre, ao alcance. O grande lance, para mim, é a conquista.
Por exemplo, um e-mail com tímidas segundas intenções de um fino colega de trabalho de aparência séria me excita muito mais do que um fortinho de cueca lambuzado de óleo se esfregando em mim. Ai , me deu aquela vontade de vomitar...
De verdade, não entendo como uma mulher pode ficar "louca" com um tipo desses. Na grande maioria das vezes (99,99%), esses "performers do sexo" são garotos de programa que transam todo tipo de coisa. Nada contra a existência deles, mas não me excitam e ponto. Ah, e sem contar que na maioria das vezes (97,97%), eles cheiram "futum" (não me pergunte o que é isso, mas o nome é perfeito) e parecem o meu porteiro depois de tomar bomba. Pronto! Fui preconceituosa, escrota e nojenta. Mas é a vida, eu tenho meus defeitos. E tenho direito, apesar de respeitá-lo muito, de não ter tesão pelo meu porteiro.
Quanto às strippers, bom, aí não é muito o meu departamento, mas o amigo que me acompanhava estava gostando tanto que nem piscava. Pensei que talvez nesse ponto mulheres e homens fossem diferentes mesmo. Esse tipo de coisa "prazer pago" funciona mais com os homens, mas essa constatação foi por água abaixo quando uma gordinha subiu no palco e ajudou o moço a tirar a cueca. E dançou com ele peladão, se esfregando nela. E eu só conseguia pensar no histórico daquele pinto e sentir pena da calça da gordinha.
O show encerrou para mim quando a Bia, uma stripper que tinha a bunda mais caída que a minha e com um número de celulites que me distraiu na contagem por mais de meia hora, abriu as pernas e mostrou o útero para quem quisesse ver. O "playground" da feira, assim como o chamou o segurança da entrada, eram cabines onde você pagava uma quantia (até 5 reais) e curtia coisas "alucinantes" lá dentro. Elas tinham nomes do tipo "Fantasia", "Contatos" e "Descubra-se". Mas quando você perguntava o que rolava lá dentro, a resposta era sempre a mesma: "Vão passar a mão em vocês, vão dançar com vocês".
Não paguei pra ver nenhuma das cabines. Um: porque eu já tinha me descoberto travada o suficiente para aquela baixaria (meu Deus, estou falando como o meu pai) e dois: porque os mesmos porteiros bombados, afeminados (nada contra, mas não me excitam) e fedendo do show anterior estavam lá. E eu definitivamente não queria nada com eles.
Tirando as cabines e os shows, ou seja, a galera pelada, o que sobram são os estandes que vendem de tudo. De tudo mesmo. O "pussy and ass" é o brinquedo perfeito para o homem que acredita naquela expressão "mulher é um monte de carne com uma vagina (substitua pelo nome vulgar) no meio. Tem também bolinhas para praticar sexo anal: uma carreira com cinco que começa com uma pequenininha e cresce para uma maior. A abelhinha é feita para a mulher vestir como se fosse uma calcinha: a antena fica no clitóris e as patas, na vagina. Mas isso é zoofilia!
Pintinhos, pintos, pintões e um tão gigante que eu juro que me deu vontade de ficar esperando plantada para ver quem ousaria comprá-lo. E pra ver como essa pessoa andava. Géis de todos os tipos também podiam ser encontrados e a vendedora complementa, com a naturalidade de quem comenta sobre a novela das oito: "esse para sexo anal é o predileto das mulheres da Buttman, que gravaram cenas de sexo explícito ontem, aqui mesmo".
Ah, vale dizer (algum elogio eu tenho que fazer, né?) que elas (as Buttman girls) são bem bonitas e simpáticas. E me parecem felizes. Se elas são felizes, quem sou eu para desejar uma vida melhor para elas? E já que abri uma exceção aqui para elogiar, vale elogiar também a apologia ao uso de camisinha, que já começava na entrada: o monumento-símbolo da feira era um pinto gigante, com camisinha.
Entre um estande e outro, enquanto eu me recuperava de tudo o que estava vendo, fui abordada por uma garota com papel e caneta na mão: "Quer se inscrever para a palestra, acabou de começar. É sobre Œsexo anal¹". O tabu voltava a me perseguir.
Espio a sala onde rolava a palestra e vi vários casais e alguns acompanhados de adolescentes (seriam os filhos?). Até sexo anal já virou assunto para se discutir em família! Que belo mundo moderno! Que medo!
Por fim, fui apresentada à Love Machine, que por ter sido responsável por um momento tão descontraído (eu e meus amigos tivemos um ataque de riso que não acabava mais), mereceu virar título deste meu texto.
A Love Machine parece um aspirador de pó que presta serviços domésticos sexuais: vem com uma prótese de pinto (você pode escolher entre vários tamanhos) e tem regulador de profundidade e velocidade.
No estande da Love Machine ainda tinha uma TV com demonstrações reais (e explícitas) do uso da máquina e um cartaz com frases animadoras do tipo "Você não precisa lavar nem cozinhar para a Love Machine"; "A Love Machine não cheira à álcool e nem funga no seu pescoço", "a Love Machine só brocha se houver um apagão".
Que bom que substituíram o aspirador de pó, um presente clichê para submissas donas de casa, por uma coisa mais moderna e mais preocupada com o prazer delas. Mas eu juro que depois de tudo isso ainda acho melhor substituir tudo isso pelo velho e bom jantar à luz de velas com música do Chet Baker, por travesseiros de pena de ganso e por juras de amor (verdadeiras) feitas por um homem de verdade.