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Chuchu

Entrou um dinheirinho e eu não preciso mais ficar mentindo pra mim mesma que Ben Harper e Eagle-Eye Cherry são a mesma pessoa: comprei os dois CDs. Aliás, o Fight For Your Mind , do Ben Harper, voltou para as prateleiras da Fnac, e já estava na hora. Na mesa dos R$ 9,99, achei uma coletânea do Chico Buarque, e ganhei um tremendo torcicolo enquanto tentava achar mais alguma coisa que prestasse por lá. Acabei encontrando a banda Mantiqueira, o Adoniran Barbosa e o Cypress Hill. Levei quatro CDs pelo preço de um. Caí direitinho no encanto da promoção.
Meu celular velhinho foi aposentado um andar acima, depois de ter sido jogado contra a parede numa manhã de fúria compreensível, após ter recebido muitas ligações de nomes que preencheram durante um bom tempo meu coração deslumbrado com a propaganda e depois de ter se encharcado de lágrimas fúteis de quem quer o mundo enquanto não sabe limpar a própria bunda.

Agora chega, celular novo e quem sabe, em breve, ligações de inofensivos namoradinhos apresentáveis em público e que racham a conta com ticket-refeição e guardam o contra-vale. O celular custava R$ 990 mas estava com uma plaquinha de R$ 690. Eu saquei o erro mas fiquei quietinha, quando o vendedor percebeu que as placas estavam trocadas eu lancei nervosamente meus conhecimentos da lei do consumidor e levei meu lindo, novo e vermelho celular por 300 reais a menos.

Bicicletas de Belleville era o escolhido da tarde, fui bem antes para o Espaço Unibanco, passeei naquela vilazinha de lojas que têm em frente e comprei uma blusa de lã com uma gola imensa lembrando das odiosas amigdalites de inverno. Depois lembrei que essas golas me dão claustrofobia e troquei a blusa por uma minúscula saia, que vai ficar linda com grossas meias de lã. O tempo que perdi entre excessos de panos e faltas do mesmo foi o exato tempo para eu pegar uma fila média e sentar num bom lugar. O filme oscila entre o fofo e o divertido. Nada de genial, mas naquele momento eu não estava para genialidades intelectuais e achei que a tarde caminhava perfeitamente.

Voltei para casa e no caminho parei na locadora, onde aluguei O Último Tango Em Paris . Esse meu amigo, que se eu dissesse o nome você ia achar que era apelido, cismou que não se pode passar por este mundo sem ver a "cena da manteiga".
Fiz pipoca com manteiga e me arrependi de ter comido tanto quando percebi que a cena do rato seria, para mim, muito mais marcante que a da manteiga. O filme me enojou bastante, mas me deu um certo alívio de eu ser mera espectadora de uma relação doentia e não mais protagonista.

Estar sozinha debaixo das cobertas no sofá da minha casa, com oito graus lá fora, me encheu de uma alegria tão grande que estar sozinha teve o mesmo peso corriqueiro de estar com sono. Assisti a alguns capítulos da quinta temporada do Sex and the City
, que eu também havia comprado na Fnac, e fui dormir muito bem acompanhada: as últimas 35 páginas de Cem Anos de Solidão . Depois de 450 Amarantas e 1.200 Aurelianos, eu estava heroicamente chegando ao fim.
À meia-luz do meu novo abajur, comprado naquela mesma manhã na feirinha do Bexiga, eu fiz uma retrospectiva daquele sábado gelado, e esbocei um meio sorriso irônico concluindo a quantidade de neurônios e dinheiro que eu havia gasto para não pensar que o que eu queria mesmo, era ter ficado o dia inteiro em casa dando mais que chuchu na cerca.