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Bom dia neurose

Acordo. Lembro que preciso levantar naquele instante porque posso chegar atrasada. Atrasada? O que é exatamente estar atrasada? Ninguém manda em mim, como diria a minha amiga Camilla. Será que ela está melhor? Preciso ligar para ela. Preciso ligar pra tanta gente.
Vou atrasar dez minutos, durmo mais meia hora. Dane-se, minha bunda anda mole mesmo. Quem me ama? Eu, minha mãe, meu pai, meu avô que morreu, o João,Š bom ele eu não sei. Levanto finalmente. Insisto em começar com o pé esquerdo, mas piso com o direito, querendo corrigir, tropeço. Eu preciso ser rara, eu preciso ser rara, foi o que o meu amigo Rodrigo disse.
Como ser rara se tudo o que eu mais quero é que percebam que eu existo? Mas eu não posso escrever tão subjetivamente, fica chato, fica diário de adolescente, foi o que o Rondon disse, ele sabe das coisas, eu preciso parar de escrever subjetivamente. Esse é o último, prometo.
Escrever sobre o que então? Não escrevo por prazer não, meu filho. Escrevo para não vomitar, e eu odeio vomitar. Será que eu vou sentir enjôo hoje? Faz oito anos que não vomito, oito anos.
Hoje vou à academia na hora do almoço ou à noite? À noite o João pode querer me ver, ou pode não querer. E eu? Quero o quê? Quero dormir mais, quero uma bunda dura e quero um Audi. Ah, e quero fazer muito sexo e ser redatora também. Mas ser redatora não deveria vir antes?
Tomo banho. Perna fina da porra, o peito deu uma murchada desde que eu parei com a pílula. A cintura tá ok. E meu útero hem? Quando vai parar de dar problemas. E meu ovário? Quando vai parar de ter cistos? Atrasada de novo. Será que eu gosto de estar atrasada? Todos que me aguardem, eu chego a hora que eu quiser. Na verdade ninguém nem percebe se eu cheguei, ou não. Por que os pêlos nascem todos os dias? Depilo, depilo e eles crescem toda hora, sou um macaco, hu, hu, hu.
Por mais que eu empine os peitos, essa é pra você Daniel, por mais que eu pinte os olhos, eu sou comum, eu sou comum. Será que eu sou comum? Eu morro se eu for comum. Morro pra provar que sou diferente porque ninguém nunca se matou por ser comum. Ou já?
Eu sou mais uma, para mim, sofridamente única. Ou vocês pensam que viver num mundo próprio e egoísta é divertido? É divertido para quem não sente como eu, para quem não ama tanto as pessoas como eu.
Eu sei, eu sei que não demonstro. Sou fria. Por dentro manteiga. Esse papo tá me enjoando e eu não vejo a hora de vomitar essa manteiga. Sou fria então, para não ficar toda hora vomitando a manteiga que sou.
Não vou me matar não, vou correr com esse banho, senão posso ficar com alergia da água quente, e minha pele é boa, todo mundo elogia. Não vou foder o que está bom. Em time que está ganhando não se mexe. Cuecas mexe.
Calvin Klein, hmmmmm. Tá louca é? Você tem que ter raiva, lembra? Você combinou com você mesma que iria ter raiva.
Uma pessoa comum pensa tudo isso no banho? Tô ficando enjoada. Deixa eu me distrair, deixa eu verŠ uma música. Acho que não sou comum, não.
Meu novo chefe disse que eu sou louca, louca e indisciplinada. Os dois melhores elogios para o meu ego torto. Adorei ele.
Como que é aquela música da Cássia Eller mesmo? Morreu coitada. Eu só peço a Deus, um pouco de malandragem, porque sou criança. Eu sou uma criança; mãe, não me mande para a rua não, faz chá pra mim, me compra aí uma boneca nova.
Já estou quase pronta, vestida para matar, que criança que nada. Mãe, me dá aí uns reais para eu cuidar do meu cabelo na hora do almoço? A vida é muito mais fácil com uma bela escova nos cabelos.
Cabelo estranho, estranho. Vou prender com rabo de cavalo, só solto depois da escova.
Tô pronta.