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Um transe às seis e dez da tarde.

Depois escrevemos um conto sobre o cheiro de sêmem urbano da R.Augusta, perguntamos para uma puta se ela cobra mais quando goza e beijamos um cachorro de bêbado na boca.
Cheiramos o asfalto de pum e gel Bozzano das passarelas da moda cheias de pedintes que usam a coleção outono-inverno de 1974.
Vamos fazer barquinhos de papel e apostar corrida com eles na sarjeta.
Depois enfiamos o dedo no cu de uma dondoca com bolsa Luis Vitton só para levar uma bolsada horrorosa na cara, comemos alfajores Havana até não caber mais vida dentro do nosso estômago. Pegamos o primeiro avião para um lugar que tenha botecos sujos de beira de estrada com morenas de sotaques intensos, suadas e cheirando a jasmim com tequila.
Vamos para o interior de Santa Catarina e perguntamos para um homem tímido e puro todas as sujeiras que ele pensa quando come a sua cabrita preferida.
Vamos correr que nem duas bestas pela Paulista e cada vez que uma pessoa limitada nos lançar seus olhares assustados com a loucura humana, vamos gritar que o último a chegar é um falido filho da puta.
Vamos entrar no Cine Olido Place e assistir a um filme pornô sem nojo da camurça gozada do chão e vamos respirar fundo o cheiro do cu dos humanos pervertidos, porque todos nós temos um cu pervertido e todos temos cus que piscam para a vida, que jogam charme para o mundo.
Nosso cu é nossa passagem para nosso lado podre, e no fundo acreditamos que o amor verdadeiro só existe se alguém aceitar o nosso cú, a nossa valeta em meio às nossas veias que amam.
E vamos enfiar uma faca de infinitas pontas para retalhar todas as almas alegres, as almas alegres das pessoas que sempre estão equilibradas e sorrindo. Vamos retalhar a sua farsa tão milimetricamente arquitetada para funcionar sofregamente. Mas você já se sente retalhado, seu filho da puta, porque você é como o Coringa: tem um gravador de riso atrás da máscara de palhaço e do sorriso arregaçado.
Quero ver você arregaçar o cu e mostrar suas impurezas, quero ver você ousar ser amado pelo cu.
Quero ver você vencido, sem seu cheirinho de lavanda e cremes.
Eu tenho nojo do suspiro profundo de retomada da razão, e a balançadinha sábia de cabeça, com o olhar sorrindo de superioridade. Você tá é morrendo de medo embaixo das suas roupas caras e das frases de elogio que alguém já te falou para lamber seu cu.
Eu tenho orgulho das portas batidas, das palmas espalmadas na cara de quem ousou empinar a porra do nariz na minha frente. Eu tenho orgulho do monstro que subiu na minha testa e deixou tudo tão quente que eu lembrei do Estrangeiro matando aquele árabe por causa da cabeça quente.
Vamos, meu amor, matar essa merda que mata a gente o tempo todo. Essa merda do tempo.
Vamos matá-lo andando de quatro em meio a pernas compridas que vão nos olhar com desprezo e preconceito. Vamos mijar na perna dos traídos.
Essas pernas que já bateram por aí em sinal de retirada quando o assunto era a verdade.
Essas pessoas eretas que cagaram para o amor em praça pública e agora nos acusam de uma mijadinha sem maiores danos.
Vamos todos trair os seres superiores que nunca se entregam porque se seguram nas bordas do agendamento de sentimentos: "eu te amo até as quatro e meia, quatro e trinta e um eu preciso lembrar que tenho uma vida cheia de amigos e compromissos".
Vamos mijar nas pernas dessas pessoas que não sabem amar horas em silêncio nos olhando nos olhos. Vamos cagar no amor que tem vergonha e medo de ser tão corajoso e idiota.
Vamos dançar nos chacoalhando e fazendo caretas e vamos tirar as tetas pra fora e vamos todos fazer uma cirandinha e vamos rir com tanta verdade que vai parecer uma dança muito inocente.
Vamos sim dormir até a hora do sono sem a culpa burocrática de ser bem sucedido. Bem sucedido é quem pode ser bicho e ainda assim pagar a conta da ração. Vamos gozar até onde vai a nossa imaginação, até o fim do corredor obscuro da entrega da alma. Vamos escrever até onde as linhas do nosso cérebro se rompem e não fazem mais sentido nenhum.
Quero me esfregar na sua barba mal feita cheirando a uma buceta qualquer que você acabou de chupar, porque não aguento o seu Listerine mentiroso dizendo que a infidelidade é a verdade dos infelizes.
Porque eu sei que você não é feliz o tempo todo, e eu sei que por mais peles lisas que existam querendo me amar, os pêlos e os desejos sempre nascem na manhã seguinte.
Vamos agora, todos, desejar a paz de Cristo para a pessoa ao lado, mas se você tiver nojo de uma mão calejada ou tesão por uma mão grande, isso só significa que ninguém mais do que você precisa de paz, e de Cristo.
Vamos todos berrar como se estivéssemos no auge de um show de rock sujo de instrumentos mal afinados. E vamos fazer isso às sete da manhã, numa cafeteria chique com velhinhas de cabelos roxos e poodles adestrados para ter um olhar arrogante.
Vamos experimentar o arrepio iminente da quase golfada, da quase gozada, da quase cagada, do quase tiro na boca e vamos nos manter iminentemente vivos, sempre com um gosto de morte e de pôr tudo a perder na boca, porque sem esse sentido simples e pequeno de que tudo não passa de uma vida de merda, não parecemos vivo.