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A Fantasia de meretriz
Adoro quando eles compram meu olhar, aprovam a mercadoria com um pseudo balançar afirmativo de cabeça, uma vírgula sem rabinho.
Preciso de no máximo duas viradas para meu rabo para vê-los pendurados em meu rastro como uma criança levada pelas mãos do pai numa brincadeira de piscina.
É na década de 20, acho. Ou numa festa a fantasia dos dias de hoje. A única certeza é estar vestida com aquelas roupas que tem a cintura no lugar errado. A pena na cabeça eu dispenso.
É num hotel antigo, acho. Mas se eu realmente estiver nos anos 20, o hotel é último lançamento.
É no centro da cidade para dar um charme melancólico-pobre- decadente, não sei. Dependendo do século, pode ser no centro para dar um ar de glamour e modernidade.
Sei, só isso, que estou irresistível. Sou loura e uso preto, isso não muda.
Tenho alma de loura vestida de preto.
Estou de pilequinho de champanhe e seguro um cigarro enorme. Tropeço às vezes, me segurando nas pessoas com mãos finas e longas. O dedo do meio tem a unha menor porque o uso com mais frequência.
Os donos do mundo estão lá e por isso mesmo estou no único lugar do mundo onde poderia estar. Donos do café, heranças de açúcar e especiarias, donos de oligarquias, monopólios, netos de senhores feudais, MatarazzosŠsobrenomes que originariam tantas famílias na paulicéia desvairada. Que mais eu lembro das aulas de história? Ou então, caso eu esteja numa festa a fantasia, donos de jornais, de agências de propaganda, mini empresários, profissionais liberais, diretores de cinema e escritores famosos.
Ahhhhhh o poder somado a um semblante intelectual, como me fascinam. Cuecas importadas que cheiram a gavetas de pau marfim com puxadores de ouro e roteiros de sitcom na cabeceira.
Eles sabem nos conduzir em seus estofados de couro gelado com músicas brilhantes. A mão quente em cima das nossas coxas duras. A aliança arrancando alguns fiapos da minha meia arrastão.
Um dia todos morrerão deixando fortunas para flácidas esposas peruas e filhas mimadas, mas enquanto esse dia não chega, é comigo que eles gastam parte pequena de tempo e dinheiro.
Se eu não tivesse que comprar vestidos caros para fazer parte da alta sociedade, eu faria de graça. Se eu não gostasse tanto da maneira como eles jogam escarrados papéis sujo de digitais e ganâncias no meu suor, eu faria de graça.
Ando esnobe e esticada por entre eles, palpitando por dentro. No fundo dos meus olhos eles encontram almofadas vermelhas de descanso e substituem a vida dura por outras durezas.
Por mais que eu me lambuze de perfumes caros e faça biquinho francês, eu exalo o quente desejo do meu ventre. Eu carrego o aroma da soma deles em mim. Eu cheiro a multidão.
A multidão pára para me sentir chegar.
Quem escolhe sou eu, eu escolho quem vai esquentar a bunda no meu veludo caro antes de esfriar a minha no couro deles.
Faço questão de beijá-los na boca e quase sempre faço amor. Quase sempre é de amor que eles precisam. Quase sempre eles se sentem menos prostituidos pela minha entrega do que pelo cartão de crédito usado pela doce e pura esposa que não libera a mixaria há meses. E quando libera é uma merda.
Aqui pode tudo benzinho, tudo. Pode fazer de conta que você é aquele martelinho da minha avó para amaciar a carne, pode fazer de conta que toda eu sou o cone da sua mão nos dias mais violentos da adolescência.
O que vier a sua cabeça me diga, pode berrar, soluçar. Suas caretas não são ridículas porque eu não existo, você me comprou como algo que só tem valor e dono quando aquecido pelas mãos que o pagaram.
Pode me chutar se você quiser, pisar na minha cabeça, apertar minha boca, cuspir em mim. O animal come seus filhotes mas não morre de fome.
Aprendi a ter quantos orgasmos eu quiser vendo as figuras do national geografic, aprendi a descartar os animais fracos para construir um pais melhor, embaixo da minha unha eu carrego células mortas de mais da metade do seu reino.
Mantenho minha cara de menina intacta, nada, nem tapa, nem sebo, nem proteínas, podem sujá-la. É nela que eles encontram consolo quando os demônios jorram longe o melhor proveito de uma vida desperdiçada.
A submissão é a coisa mais poderosa que você pode oferecer a alguém: o equilíbrio do seu corpo é muito maior com quatro patas no chão.
Meu maior vício é estar sempre numa posição onde vejo a fraqueza dos joelhos, o enlaçar de pernas contrários as poses hipócritas da boa postura e a sujeira nos sapatos.
Eu estou do lado da verdade, eu dou vida ao que move o mundo. Eu estampo na testa de quem quiser a verdade que carrego no peito: não fomos feitos para andar eretos.
Acordo ao lado do meu namorado e ele me sorri agradecido e sujo pela nossa brincadeira de faz de conta. Seu olhar idiota de agradecimento me faz sentir usada novamente. Parte de mim morreu com a fantasia rasgada no chão, tomo um banho idiota, tomo um café da manhã idiota e miro idiota a rua defeituosa que sobe e desce todos os dias apesar do mundo parecer tão parado.

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